20/01/2025

Mecanismos de perda de nitrogênio no solo na produção de milho

Mecanismos de perda de nitrogênio no solo na produção de milho

Considerando os critérios de essencialidade dos nutrientes, não é possível classificar um elemento como mais ou menos importante, pois cada nutriente desempenha um papel específico e é demandado em quantidades e momentos distintos. Nesse sentido, pode-se diferenciar os nutrientes apenas quanto à sua exigência em maior ou menor quantidade. No cultivo de cereais, o nitrogênio é o nutriente mais requerido e, ao mesmo tempo, um dos principais fatores limitantes da produtividade. No caso do milho, o nitrogênio é considerado o segundo fator mais impactante, ficando atrás apenas do clima.

A alta demanda por nitrogênio está diretamente relacionada ao papel essencial desse elemento na formação de aminoácidos, proteínas, enzimas e clorofila, além de sua participação na síntese de hormônios e outros componentes-chave para os processos fisiológicos das plantas. O milho, em particular, é uma cultura altamente exigente em nitrogênio: em média, para cada tonelada de grãos colhidos, são removidos entre 17 kg/ha e 23 kg/ha de nitrogênio. Assim, a suplementação desse nutriente é indispensável para atender às necessidades da cultura, especialmente em solos com baixa disponibilidade natural de nitrogênio.

Durante o ciclo do milho, a demanda por nitrogênio é especialmente elevada em fases críticas, como o crescimento vegetativo até o florescimento, período em que até 70% do nitrogênio necessário para o ciclo da cultura é exigido. Após o florescimento, durante o enchimento de grãos, cerca de 30% do nitrogênio total é requerido, momento em que o acúmulo de biomassa e a síntese de compostos estruturais atingem o auge. Dessa forma, garantir a oferta adequada de nitrogênio ao longo de todo o ciclo é um dos maiores desafios de manejo, considerando que a eficiência dos fertilizantes nitrogenados pode ser comprometida por diversos fatores.

Compreender os fatores de perda do nitrogênio é fundamental para o manejo eficiente desse nutriente. As perdas mais significativas incluem lixiviação, desnitrificação e volatilização, as quais podem ser intensificadas por condições climáticas adversas, características do solo, modo de aplicação e tipo de fertilizante utilizado.

No caso de fertilizantes à base de ureia, a volatilização é um risco comum quando a ureia não é incorporada ao solo ou quando não ocorre precipitação logo após a aplicação. Além disso, o nitrogênio na forma de nitrato (NO3-) é especialmente vulnerável à lixiviação e à desnitrificação, evidenciando a importância de adotar estratégias para mitigar essas perdas e aumentar a eficiência do uso do nitrogênio.

Lixiviação

Definição: perda de nitrato (NO3-) que é transportado pela água do solo para profundidades abaixo da zona de absorção radicular da cultura (Figura 1).

Situações de risco de perda de N 

O risco de lixiviação é tipicamente maior durante o verão, quando as chuvas são geralmente mais intensas e o N aplicado fica mais suscetível à perda por lixiviação.

Figura 1 - Processo de lixiviação | Fonte: adaptado de Mark Jeschke.

Processos e reações
  • O nitrato é um íon de carga negativa. Sendo assim, não é atraído pelas partículas do solo e pode mover-se com a água no perfil do solo.
  • A desnitrificação é um processo microbiano, onde o nitrato (NO3-) é reduzido e convertido em gás N2por meio de uma série de etapas intermediárias.
  • Quando o oxigênio no solo é limitado, uma variedade de bactérias irá usar os átomos de oxigênio das moléculas de nitrato para a respiração.
  • Quando o nitrato não é completamente convertido em gás N2, o subproduto resultante é o óxido nitroso (N2O), um gás de efeito estufa.
  • Os íons de amônio são convertidos na forma de nitrato pela ação de determinadas bactérias do solo, em um processo conhecido como nitrificação.
  • O processo de nitrificação ocorre em duas etapas, realizadas por bactérias no solo que utilizam a oxidação de compostos químicos como fonte de energia: 

o   1ª: oxidação da amônia (NH3) em nitrito (NO2-);

o   2ª: oxidação do nitrito em nitrato (NO3-).

Fatores importantes
  • Precipitação: quanto mais água se move através da zona radicular, maior será o potencial de lixiviação.
  • Textura: solos arenosos apresentam menor capacidade de retenção de água e maior potencial de lixiviação.
  • Taxa de nitrificação: múltiplos fatores influenciam a taxa de nitrificação, a qual afeta a suscetibilidade do N à lixiviação:

o   Temperatura do solo: a nitrificação é um processo biológico e, por isso, altamente afetado pela temperatura. O processo é maximizado quando a temperatura do solo se eleva acima dos 24 ºC e vai diminuindo à medida que a temperatura vai caindo, cessando quando a temperatura do solo fica abaixo dos 4 ºC.

o   Umidade do solo: tanto a água quanto o oxigênio são necessários para a nitrificação; condições de umidade e oxigenação semelhantes àquelas que são consideradas ideais para as plantas são também ideais para ocorrer a nitrificação. Condições de umidade excessiva desfavorecem a nitrificação: uma saturação de água acima dos 60% limita o processo de nitrificação.

o   O pH do solo: a faixa de pH ideal para a nitrificação é entre 6,5 e 8,8. A nitrificação é reduzida em solos ácidos ou muito alcalinos.

Táticas para reduzir a perda de N por lixiviação
  • Época de aplicação: realizar a adubação nitrogenada o mais próximo possível do momento de maior demanda da cultura reduz o tempo de exposição do nutriente e diminui as chances de o nutriente lixiviar, não sendo aproveitado.
  • Fonte de Nitrogênio: substituir os fertilizantes por fontes de liberação mais lenta pode atenuar as perdas por lixiviação.
  • Parcelamento de aplicações: ao fornecer o nitrogênio de forma parcelada, diminui-se o risco de lixiviação em condições de chuvas intensas.

    Desnitrificação

    Definição: perda de N para a atmosfera na forma de gás N2O ou N2 (Figura 2).

    Situações de risco de perda de N 

    A desnitrificação (Figura 2) ocorre em solos saturados. As maiores perdas de nitrogênio por desnitrificação geralmente ocorrem no início do ciclo de cultivo, uma vez que as precipitações são frequentes e a absorção do nitrogênio aplicado é baixa, pois as plantas ainda não têm o sistema radicular totalmente desenvolvido.


    Figura 2 - Processo de desnitrificação | Fonte: adaptado de Mark Jeschke.

    Fatores importantes
    • Água no solo: a desnitrificação é desencadeada por eventos pluviométricos de volume suficiente para saturar pelo menos 60% do espaço poroso do solo. Por volta de 2 a 3 dias de saturação são necessários para iniciar a desnitrificação.
    • Nitrogênio na forma de nitrato: Nitrogênio na forma de amônio (NH4+) não está sujeito à desnitrificação.
    • Temperatura do solo: a desnitrificação é um processo biológico e aumenta à medida que a temperatura do solo se eleva.
    Táticas para reduzir a perda de N por desnitrificação
    • Manter o nitrogênio na forma de amônio: o uso de inibidores de nitrificação demonstrou ser altamente eficaz na redução das perdas de N por desnitrificação. 
    • Reduzir o potencial de saturação do solo: melhorar a drenagem do solo pode diminuir o risco de perda de N por desnitrificação.

    Volatilização

    Definição: perda de ureia aplicada superficialmente no solo para a atmosfera na forma de gás - amônia (NH3) (Figura 3).

    Situações de risco de perda de N 

    Adubos orgânicos e fertilizantes contendo ureia os quais não são incorporados durante preparo do solo ou precipitação pluviométrica, em um curto espaço de tempo após a aplicação.

    Processos e reações 
    • A hidrólise da ureia é catalisada pela urease, uma enzima que é produzida por muitos tipos de bactérias presentes no solo.
    • A ureia é hidrolisada em uma molécula de CO2 e duas de NH3.
    • Se esta reação ocorrer dentro do solo, o NH3 reage com a água presente no solo para formar NH4+, que é então ligado ao solo.
    • Se a reação ocorrer na superfície do solo, o NH3 pode ser perdido para a atmosfera.
    • A maior parte da volatilização ocorre dentro de 1-3 semanas após a aplicação.
    Fatores importantes
    • Temperatura do ar: a atividade da urease aumenta à medida que a temperatura se eleva. A hidrólise é normalmente concluída no prazo de 10 dias a 4 ºC e dentro de 2 dias a 29 ºC. 
    • Umidade da superfície do solo: a reação de hidrólise requer água, portanto a volatilização aumenta com o teor de água no solo.
    • Características do solo: alto pH do solo, teor de argila, CTC e/ou matéria orgânica estão associados a uma menor volatilização.
    • Resíduos de cultura: altos níveis de resíduos superficiais podem aumentar a umidade da superfície do solo, impedir que a ureia atinja o solo e abrigar bactérias que hidrolisam a ureia.
    Táticas para reduzir a perda de N por volatilização
    • Incorporação do fertilizante ao solo.
    • Incorporação por chuva ou irrigação.
    • Inibidores de urease: inibidores de urease retardam a hidrólise da ureia, o que pode reduzir a volatilização.


    Figura 3 - Processo de volatilização | Fonte: adaptado de Mark Jeschke.

    Autor: Mark Jeschke. Traduzido e adaptado por Rafael Assis, Fábio Amaral e Jefferson Cunegundes (time de agronomia Corteva Agriscience).

    Uma suplementação bem manejada não só eleva os índices de produtividade, mas também contribui para a sustentabilidade do sistema produtivo, reduzindo impactos ambientais e maximizando o retorno econômico ao produtor.