28/09/2026

Milho como cultura estratégica nos sistemas produtivos: impactos na produtividade da soja

Milho verão e milho safrinha contribuem, de formas diferentes, para sistemas mais sustentáveis quando inseridos em uma rotação bem planejada.

O milho (Zea mays L.) desempenha papel central nos sistemas agrícolas brasileiros, não apenas como cultura de elevada importância econômica, mas também como componente estratégico na construção de sistemas produtivos mais eficientes, sustentáveis e resilientes. Em empresas do setor agrícola, o posicionamento correto do milho dentro da rotação de culturas pode contribuir para ampliar o desempenho da soja, principal cultura de rentabilidade em grande parte das regiões produtoras.

A adoção intensiva da sucessão soja-milho safrinha trouxe ganhos expressivos de produção nas últimas décadas. Entretanto, a repetição contínua desse arranjo, sem diversificação adequada, pode aumentar os desafios relacionados à qualidade do solo, à pressão fitossanitária e à estabilidade produtiva. Nesse contexto, o milho passa a ser avaliado não apenas pelo rendimento individual, mas também por sua contribuição para o sistema de produção e pelos possíveis reflexos sobre a produtividade da soja.

Importância do milho

O milho exerce papel estratégico na estruturação dos sistemas produtivos, tanto pela capacidade de produzir grande quantidade de biomassa e resíduos vegetais quanto pela possibilidade de diversificar a sequência de culturas. Seu sistema radicular contribui para a exploração do perfil do solo, enquanto a permanência da palhada sobre a superfície auxilia na proteção contra a erosão e na conservação da água. Ao longo do tempo, o aporte contínuo de resíduos também pode contribuir para a manutenção e o aumento dos teores de matéria orgânica, dependendo das condições do ambiente e do conjunto de práticas adotadas.

A inclusão do milho na rotação também pode contribuir para o manejo de problemas fitossanitários. A alternância entre culturas modifica a disponibilidade de hospedeiros e pode interromper ciclos de determinados patógenos e pragas. No caso da soja, por exemplo, a introdução do milho na sequência de cultivos pode contribuir para reduzir a repetição de hospedeiros e favorecer o manejo de doenças. A rotação entre soja e milho é uma estratégia que pode contribuir para o controle de doenças da soja e tem efeitos positivos sobre o rendimento das culturas.

O milho cultivado no verão tem importância particular nesse contexto. Ao ocupar a área em uma época em que, em muitas regiões, a soja seria a principal alternativa, permite ampliar a diversificação do sistema e alterar a sequência de hospedeiros. Ao substituir a soja em parte da área durante a safra de verão, o milho também pode contribuir para interromper a continuidade de determinados patógenos da cultura, especialmente daqueles cuja manutenção depende de hospedeiros suscetíveis, como ocorre com doenças biotróficas.

Outro ponto de atenção é o manejo de nematoides. O monitoramento realizado pela Pioneer® entre as safras 2023 e 2025 identificou a presença de pelo menos um gênero de nematoide em 98% das áreas avaliadas, enquanto 29% apresentaram níveis médios a altos de infestação. Entre os gêneros mais frequentes estiveram Helicotylenchus dihystera e Pratylenchus spp., este último de grande relevância para as culturas de milho e soja. Os resultados reforçam a necessidade de diagnosticar quais nematoides estão presentes e considerar sua população e a espécie ou grupo de nematoides predominante antes de definir a sequência de culturas e as demais estratégias de manejo.

Nesse cenário, o milho pode fazer parte do manejo integrado de nematoides, mas sua contribuição depende da escolha do híbrido e do nematoide predominante na área. O milho não é parasitado pelo nematoide de cisto da soja, Heterodera glycines, o que permite utilizá-lo na rotação para áreas infestadas por esse nematoide. Para Meloidogyne spp. e Pratylenchus brachyurus, porém, existem diferenças entre os genótipos de milho quanto à capacidade de multiplicar esses organismos. Por isso, em áreas com ocorrência de nematoides, a escolha de híbridos com baixo fator de reprodução para o alvo identificado é uma medida importante dentro do planejamento da rotação.

O milho safrinha, por sua vez, amplia o aproveitamento da área após a cultura de verão e ocupa uma posição importante na composição econômica dos sistemas agrícolas. Ao utilizar a mesma área, infraestrutura e parte dos recursos disponíveis após a soja, a segunda safra permite produzir uma cultura comercial adicional no mesmo ano agrícola, permitindo distribuir os custos associados ao uso da terra entre duas culturas comerciais. Seu papel, portanto, vai além da produção de grãos. Quando bem inserido no planejamento, o milho safrinha integra a estratégia de utilização da área e de composição da renda da propriedade.

A contribuição do milho safrinha para o sistema, contudo, depende do manejo adotado. A sucessão contínua soja-milho não substitui a rotação de culturas e pode favorecer a manutenção de determinados problemas fitossanitários. Por isso, a definição da sequência de cultivos deve considerar o histórico da área, a ocorrência de nematoides, as características dos híbridos utilizados e a inclusão de outras culturas quando necessária. Dessa forma, milho verão e milho safrinha cumprem funções distintas, mas complementares: o primeiro amplia as possibilidades de rotação e diversificação do sistema, enquanto o segundo permite intensificar o uso da área e contribuir para a viabilidade econômica da terra, sem deixar de considerar os impactos agronômicos da sequência de culturas.

Reflexos do milho na produtividade da soja

Diversos estudos avaliam os efeitos das diferentes sequências de culturas sobre o desempenho da soja. Os resultados indicam que a resposta da cultura depende da composição da rotação, das características do ambiente e do manejo empregado. Em determinadas condições, sistemas que incluem o milho e outras culturas na sequência podem proporcionar maior produtividade da soja em comparação a sistemas menos diversificados.

Os possíveis ganhos estão relacionados a diferentes fatores, como produção e manutenção de palhada, alterações nos atributos físicos do solo, diversificação do sistema radicular e mudanças na dinâmica de água e nutrientes. Não é possível estabelecer um incremento fixo de produtividade para a soja após o milho, já que a magnitude da resposta varia conforme o ambiente de produção e o sistema de manejo. Há, no entanto, registros de incrementos médios de produtividade entre 5 e 10% em sistemas bem manejados.

Além do rendimento de grãos, a diversificação pode contribuir para maior estabilidade produtiva ao longo das safras. A manutenção da cobertura do solo e a melhoria das condições para o desenvolvimento radicular também são fatores importantes para enfrentar períodos de déficit hídrico e outras condições de estresse.

Para engenheiros agrônomos que atuam em empresas do setor agrícola, a compreensão do milho como cultura estruturante é fundamental para a construção de recomendações técnicas consistentes. Sistemas baseados apenas na produtividade individual das culturas podem deixar de considerar os efeitos acumulados do manejo sobre o solo e sobre o desempenho das culturas ao longo dos anos.

A adoção de sistemas integrados, envolvendo milho verão, milho safrinha e culturas de cobertura, permite diversificar a produção, melhorar o aproveitamento dos recursos disponíveis e contribuir para a construção de condições mais favoráveis ao desenvolvimento da soja.

Considerações

O milho deve ser entendido como componente estratégico dos sistemas agrícolas, exercendo papel importante na construção da qualidade do solo e na diversificação das sequências de culturas. Sua adequada inserção na rotação, associada ao manejo da cobertura e das demais práticas agronômicas, pode contribuir para sistemas mais eficientes, resilientes e economicamente sustentáveis.

soja e milho

Imagem 2 - A adoção intensiva da sucessão soja-milho safrinha trouxe ganhos expressivos de produção nas últimas décadas | Foto: Banco de Imagens Pioneer®.

Autores: Anderson Pessotto, agrônomo de campo Pioneer®, e Zenilson Balem, gerente de agronomia Pioneer® - Norte.

Referências

EMBRAPA. Sistema de produção de milho. Brasília: Embrapa, diversos anos.
EMBRAPA. Integração lavoura-pecuária-floresta: fundamentos e aplicações. Brasília: Embrapa, 2019.
SÁ, J. C. M. et al. Sistema plantio direto: bases científicas e práticas. Ponta Grossa: Fundação ABC, 2018.
DENARDIN, J. E.; KOCHHANN, R. A. Princípios do plantio direto. Passo Fundo: Embrapa Trigo, 2016.