27/07/2026

Podridão-salmão acende alerta na safrinha de milho em Mato Grosso e Rondônia

Podridão-salmão da espiga

Identificada em áreas produtoras dos dois estados, a doença causada por Waitea zeae passou a integrar o monitoramento fitossanitário da safrinha. Embora Fusarium spp. e Stenocarpella spp. continuem sendo os principais agentes associados aos grãos ardidos, o registro do patógeno reforça a importância do diagnóstico correto e do manejo integrado.

Nas últimas safras, os produtores têm convivido com doenças de grão já conhecidas, principalmente as causadas por Fusarium spp. e Stenocarpella spp.. Entretanto, durante a safrinha 2026, um novo patógeno passou a chamar a atenção em áreas do norte de Mato Grosso e de Rondônia: o fungo Waitea zeae, causador  da podridão-salmão da espiga.

Embora sua ocorrência ainda seja regionalizada, os levantamentos realizados indicam que a doença merece acompanhamento, principalmente pela capacidade de comprometer a sanidade das espigas, reduzir a qualidade dos grãos e impactar o potencial produtivo da lavoura.

Esse monitoramento ganha ainda mais importância diante da crescente demanda por milho de qualidade. Atualmente, entre 60% e 65% da produção nacional permanece no mercado interno e, desse volume, cerca de 60% a 70% é destinado à produção de ração para aves, suínos, bovinos e outras cadeias pecuárias.

Além disso, o milho vem ampliando sua participação na produção de etanol. As projeções da Sincopetro para 2026 indicam crescimento de aproximadamente 17% no setor, com expectativa de consumo de 31,4 milhões de toneladas do cereal pelas indústrias brasileiras de biocombustíveis na safra 2026/27. O Mato Grosso lidera esse movimento e deve processar cerca de 16,36 milhões de toneladas de milho, respondendo por aproximadamente 62% da produção nacional de etanol de cereais.

Diante desse desafio, preservar a sanidade das espigas significa proteger não apenas a produtividade, mas também a qualidade da matéria-prima destinada às diferentes cadeias consumidoras.

A podridão-salmão ameaça mais do que as demais doenças?

Não. Apesar do alerta provocado pela ocorrência de Waitea zeae, é importante compreender que Fusarium spp. e Stenocarpella spp. continuam sendo os principais fungos associados aos grãos ardidos nas lavouras de Mato Grosso e de outras regiões produtoras.

A identificação da podridão-salmão, portanto, não muda esse cenário, mas amplia a atenção para um patógeno que passou a ser observado com maior frequência em algumas regiões e que exige monitoramento para diagnóstico correto e tomada de decisão.

O que já se sabe sobre a doença?

A podridão-salmão da espiga é causada por Waitea zeae, fungo anteriormente classificado como Rhizoctonia zeae. A doença foi descrita originalmente nos Estados Unidos na década de 1930 e registrada pela primeira vez no Brasil em 2002. Estudos moleculares e filogenéticos mais recentes consolidaram a classificação do agente causal como Waitea zeae.

Os sintomas característicos incluem lesões elípticas com bordas marrom-avermelhadas nas brácteas e bainhas da espiga, além da formação de um micélio denso de coloração rosa-claro a rosa-salmão sobre a superfície da espiga. À medida que a doença evolui, ocorre o apodrecimento dos grãos, comprometendo sua qualidade. Também podem ser observados pequenos escleródios com coloração que varia de rosa-salmão a marrom-escuro nas brácteas.

Outro aspecto importante é que a podridão-salmão pode se desenvolver mesmo em plantas que apresentam boa sanidade foliar, tornando o monitoramento das espigas uma etapa indispensável durante o ciclo da cultura.

Imagem 1 - Linha em tom vermelho-escuro nos grãos é um dos sintoma de podridão-salmão | Foto: Jaisson Branco.

 

As ocorrências em MT e RO

Embora a ocorrência da doença ainda seja considerada limitada às regiões mais ao norte de Mato Grosso e Rondônia, os levantamentos realizados durante a safrinha 2026 reforçam a necessidade de acompanhamento.

Segundo a Fundação Rio Verde, a Clínica de Plantas, identificou Waitea zeae em 14 das 85 amostras de milho recebidas em maio de 2026, correspondendo a 16,5% do total avaliado. A maior incidência foi registrada nas espigas, principalmente em amostras provenientes das regiões de Ipiranga do Norte, Alta Floresta e Sinop.

Em Rondônia, avaliações conduzidas pelo Instituto de Pesquisa e Ciências de Dados para Agricultura Tropical (INPACTO), nos municípios de Alto Paraíso e Triunfo, demonstraram diferenças de incidência e severidade entre híbridos. Cerca de 81% dos materiais apresentaram comportamento tolerante, enquanto 19% mostraram maior suscetibilidade.

As avaliações também revelaram um cenário de alto potencial de dano. Foi observada colonização de bainhas foliares, palhas e espigas, comprometendo a sanidade dos grãos e reduzindo o potencial produtivo. Os primeiros sintomas surgiram a partir do estádio reprodutivo R3, com aumento da incidência e da severidade entre os estádios R5 e R6. 

Imagem 3 - Doença se manifesta nas espigas | Fotos: Fundação Rio Verde.

 

Pesquisadores ressaltam que ainda são necessários mais estudos para compreender melhor o ciclo da doença, o momento da infecção e o comportamento dos diferentes híbridos nas condições brasileiras. Até o momento, as observações de campo indicam que ambientes com chuvas prolongadas ou alta umidade relativa do ar, associados a temperaturas moderadas a elevadas, favorecem a germinação do fungo e seu rápido desenvolvimento.

Além das condições ambientais, outros fatores podem contribuir para aumentar a incidência de doenças de espiga, como danos provocados por insetos, espigas mal empalhadas, palhas frouxas, espigas não decumbentes e adubações desequilibradas, especialmente com excesso de nitrogênio e baixos níveis de potássio.

Durante a safrinha 2026, também foram observados casos de elevada incidência de bactérias na base das espigas em algumas áreas de produção. Em determinadas situações, a infecção evoluiu comprometendo toda a espiga. A identificação da espécie e a caracterização do problema ainda estão em andamento, reforçando a importância do monitoramento fitossanitário contínuo e do diagnóstico correto antes da adoção de estratégias de manejo.

Como reduzir os riscos na lavoura?

Assim como ocorre com outras doenças associadas aos grãos ardidos, até o momento não existe uma medida isolada capaz de eliminar a ocorrência da podridão-salmão.

O manejo deve ser construído de forma integrada, considerando que um bom planejamento da lavoura pode mitigar a severidade das doenças foliares e de grãos. A escolha de híbridos adaptados ao ambiente de produção, a definição da população de plantas, o manejo fitossanitário, o monitoramento frequente das espigas e o planejamento da colheita são fatores que atuam em conjunto para reduzir perdas.

Programas de fungicidas devem ser bem adaptados às doenças predominantes na região. O uso de carboxamidas associadas a um fungicida protetivo tem apresentado bons resultados no manejo de doenças de espiga. Além disso, o equilíbrio nutricional da cultura - especialmente mantendo uma relação entre nitrogênio e potássio próxima de 1:1 - e a realização da colheita com maior umidade dos grãos, ideal entre 20% e 25%, contribuem para reduzir a incidência e a severidade de grãos ardidos.

Mais do que nunca, o monitoramento da lavoura é indispensável. A identificação correta dos sintomas e o acompanhamento constante das áreas permitem decisões mais rápidas e assertivas, contribuindo para preservar tanto a produtividade quanto a qualidade dos grãos.

Autores: Alcides Gremes Ita e Diego Abreu, agrônomos de campo Pioneer®.

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Referências

CASA, R. T.; REIS, E. M.; ZAMBOLIM, L. Doenças do milho causadas por fungos do gênero Stenocarpella. Fitopatologia Brasileira, 2006.

EMBRAPA. Circular Técnica 83: Doenças na Cultura do Milho. Sete Lagoas, 2006.

Fundação Rio Verde. Problemas em espigas de milho exigem monitoramento e diagnóstico fitossanitário. 2026. Disponível em: https://fundacaorioverde.com.br/problemas-em-espigas-de-milho-exigem-monitoramento-e-diagnostico-fitossanitario-alerta-fundacao-rio-verde/.

INPACTO. Incidência e severidade de Waitea zeae em híbridos de milho nas regiões de Alto Paraíso/RO e Triunfo/RO: safrinha 2025/2026. 2026.

SCA Brasil. Produção de etanol de milho tem potencial para atingir 13,2 bilhões de litros na safra 2026/27.

UOL. MT deve ampliar produção de etanol em 16% em 2026/27 com avanço do milho. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/05/25/mt-deve-ampliar-producao-de-etanol-em-16-em-202627-com-avanco-do-milho.htm