A cultura do sorgo (Sorghum bicolor L. Moench) destaca-se na agricultura brasileira, sobretudo na região do Cerrado. Nos últimos cinco anos, a área plantada passou de 864,6 mil para 1,632 milhão de hectares, segundo dados da Conab, representando um crescimento de 52,9%. Esse avanço é impulsionado pela expansão das usinas de etanol à base de milho e outros cereais - atualmente são 27 unidades em operação, com projeção de chegar a 33 até o final de 2026 (Unem, 2026) - e pela reabertura do mercado chinês para exportação.
Em novembro de 2025, a China habilitou dez estabelecimentos brasileiros, viabilizando os primeiros embarques em janeiro de 2026. Esse movimento elevou a liquidez e a previsibilidade do cereal, reduzindo riscos para o produtor e incentivando a expansão da cultura de forma sustentável.
Contudo, o crescimento acelerado da área, aliado à intensificação dos sistemas produtivos e à maior frequência de cultivo, favorece a ocorrência de doenças, o que pode comprometer tanto a produtividade quanto a qualidade dos grãos.
Neste contexto, este artigo revisa as principais doenças do sorgo no Brasil, com foco em etiologia, sintomas, epidemiologia e estratégias de manejo integrado, com o objetivo de subsidiar sistemas de produção mais resilientes e sustentáveis.
As doenças foliares representam uma das principais limitações fitossanitárias à expansão da cultura do sorgo no Brasil, especialmente em sistemas intensivos de safrinha no Cerrado. Nessas condições, a combinação de alta umidade e temperaturas entre 25 °C e 30 °C favorece a ocorrência de epidemias.
Trata-se da doença foliar mais importante e destrutiva do sorgo no Brasil, estando presente em todas as regiões produtoras do Cerrado.
Causada pelo fungo hemibiotrófico Colletotrichum sublineolum (teleomorfo Glomerella graminicola), que sobrevive como micélio, conídios e microescleródios em restos culturais na superfície do solo por até 18 meses. O inóculo primário também pode ter origem em sementes infectadas e em hospedeiros alternativos, como Sorghum halepense, Sorghum arundinaceum e Sorghum sudanense.
As lesões iniciais são elípticas ou circulares, com cerca de 5 mm de diâmetro, apresentando centro necrótico de coloração palha e bordas avermelhadas a púrpuras. Sob condições de alta umidade, ocorre coalescência das lesões, formação de acérvulos escuros no centro e evolução para necrose foliar generalizada.
A doença pode progredir para podridão do colmo, queima da panícula e dos grãos, podendo causar seca precoce em cultivares suscetíveis.
Foto 1 - Folhas de sorgo acometidas por antracnose | Fotos: Élcio Alves (A) e Vinícius Alencar (B).
A doença é favorecida por temperaturas amenas, próximas a 25 °C, associadas a alta umidade relativa, elevada precipitação e períodos prolongados de molhamento foliar (≥ 24 h), com aumento da severidade conforme a duração desse molhamento. O desenvolvimento é limitado em temperaturas inferiores a 15 °C e superiores a 30 °C.
A penetração do patógeno ocorre de forma direta, via apressório, com fase biotrófica inicial de aproximadamente 24 horas, seguida pela fase necrotrófica. A disseminação ocorre principalmente por respingos de chuva (até 1 m) e pelo vento, com maior risco a partir de 30 a 40 DAE ou durante o enchimento de grãos.
Em cultivares suscetíveis, as perdas podem superar 80% na produção de grãos (Casela et al., 2013). O controle químico é complementar, sendo a resistência genética a principal estratégia de manejo. No entanto, essa estratégia deve ser associada a outras práticas, devido à alta variabilidade do patógeno, com registro de 5 a 7 raças no Brasil.
Além da escolha de cultivares com boa tolerância, recomenda-se a eliminação de plantas hospedeiras desde a cultura antecessora, como a soja, seguida de adequada dessecação pré-plantio. O uso de herbicidas como S-metolacloro em pré-emergência contribui para o manejo de plantas daninhas hospedeiras.
Também é indicado o uso de tratamento de sementes, visando proteger a plântula contra inóculos iniciais presentes no solo, além da aplicação de fungicidas (triazóis + estrobilurinas) em momentos estratégicos. O monitoramento deve ser iniciado a partir dos 40 DAE.
Doença foliar importante no sorgo brasileiro, especialmente em safrinhas das regiões Centro-Oeste e Sudeste, onde condições de orvalho intenso e temperaturas amenas favorecem a ocorrência de epidemias.
Causada pelo fungo Exserohilum turcicum, um patógeno necrotrófico. Sobrevive como micélio e conídios em restos culturais na superfície do solo, que constituem a principal fonte de inóculo primário. Hospedeiros alternativos incluem o milho e gramíneas silvestres.
As lesões iniciais surgem, em geral, nas folhas mais velhas, sendo alongadas e elípticas, com comprimento variando de 3 a 15 cm. Apresentam-se paralelas às nervuras, com centro necrótico de coloração cinza-palha a marrom-claro e bordas púrpura-avermelhadas, podendo também apresentar tonalidades acinzentadas ou amareladas.
Sob condições favoráveis, as lesões coalescem rapidamente, resultando em necrose extensa, seca precoce das folhas, que se tornam quebradiças, e redução significativa da área foliar fotossinteticamente ativa.
Foto 2 - Lesões de helmintosporiose (turcicum) em sorgo | Foto: Vinícius Alencar.
A doença é favorecida por temperaturas moderadas, entre 20 °C e 30 °C, associadas a alta umidade relativa do ar (>70%) e períodos prolongados de orvalho noturno ou molhamento foliar (≥12 a 24 h).
A penetração ocorre via estômatos ou diretamente, e a disseminação se dá principalmente por conídios transportados pelo vento e por respingos de chuva. A incidência tem aumentado no Brasil em função da expansão da área cultivada com sorgo, especialmente em sistemas de rotação soja-milho/sorgo.
Em cultivares suscetíveis, as perdas podem superar 50% quando a infecção ocorre antes da emissão da panícula (Embrapa, 2007). A principal estratégia de manejo é a utilização de híbridos com boa tolerância genética, associada ao controle químico complementar com fungicidas (triazóis + estrobilurinas).
Recomenda-se a realização de uma a duas aplicações a partir dos 45 DAE, conforme a pressão da doença e as condições ambientais.
Doença foliar comum e importante na cultura do sorgo no Brasil, estando distribuída em todas as regiões produtoras, com maior severidade após o florescimento.
Causada pelo fungo parasita obrigatório Puccinia purpurea. O patógeno sobrevive em hospedeiros vivos, como Sorghum halepense e Sorghum verticilliflorum, ou em plantas remanescentes no campo, não persistindo em restos culturais no solo.
Caracteriza-se pela formação de pústulas pequenas, com até 3 mm de diâmetro, de coloração castanho-avermelhada a ferruginosa, distribuídas nas faces inferior e superior das folhas, inicialmente nas folhas basais.
Foto 3 - Pústulas de ferrugem (P. purpurea) em sorgo | Foto: Divulgação.
Em híbridos suscetíveis, essas pústulas podem coalescer, resultando em necrose foliar e redução da área fotossinteticamente ativa.
A doença é favorecida por temperaturas amenas, entre 20 °C e 30 °C, associadas a alta umidade relativa (>80%), ocorrência de orvalho e chuvas finas. A disseminação ocorre principalmente pelo vento e por respingos de chuva.
Seu maior impacto é observado em cultivares suscetíveis após o florescimento, fase em que a infecção pode comprometer significativamente a manutenção da área foliar funcional.
Por se tratar de uma doença de progressão rápida, o monitoramento deve ser intensificado principalmente após a emissão da panícula.
O controle químico com fungicidas pode ser eficaz, especialmente quando realizado preventivamente ou no início dos sintomas. No entanto, a principal ferramenta de manejo continua sendo a utilização de híbridos com maior tolerância genética à doença.
As doenças de panícula e grãos representam importantes limitações à produtividade do sorgo no Brasil, especialmente em sistemas intensivos de produção. Nessas condições, o florescimento prolongado, a elevada umidade relativa do ar e as temperaturas amenas favorecem a ocorrência de infecções nos órgãos reprodutivos (Casela et al., 2009).
Entre essas doenças, o ergot, também conhecido como doença-açucarada, destaca-se como uma das mais importantes e destrutivas da cultura. Introduzida no Brasil em 1995, a doença disseminou-se rapidamente por todas as regiões produtoras do país (Reis et al., 2005).
Causada pelo fungo Claviceps africana. O patógeno infecta exclusivamente ovários não fertilizados durante a antese. Sobrevive na forma de escleródios presentes no solo, em sementes contaminadas - na forma de escleródios ou honeydew seco - e em hospedeiros alternativos, como Sorghum halepense, Brachiaria spp. e Panicum maximum.
A infecção se inicia durante a antese, caracterizando-se pela exsudação de uma substância pegajosa (honeydew), com coloração rosada a castanha, proveniente dos ovários infectados. Posteriormente, ocorre a formação de escleródios que substituem os grãos, formando estruturas endurecidas, alongadas e de coloração preta a acinzentada.
A panícula adquire aspecto “melado” ou recoberto por substância açucarada. Além disso, grãos sadios adjacentes podem ser contaminados por fungos saprófitas.
Foto 4 - Panícula infectada por Claviceps africana (ergot) | Foto: Vinícius Alencar.
A doença é favorecida por temperaturas amenas, entre 14 °C e 18 °C, associadas a alta umidade relativa do ar (76-84%) durante a antese, condição que prolonga a exposição dos ovários não fertilizados ao patógeno.
A disseminação ocorre por conídios presentes no honeydew, transportados por respingos de chuva, vento e insetos, além da disseminação de escleródios via sementes contaminadas e restos culturais. O maior risco ocorre quando o florescimento coincide com períodos de frio noturno ou elevada umidade, favorecendo rápida disseminação da doença.
A resistência genética ao ergot ainda é limitada. Assim, as principais estratégias de manejo envolvem o escape cultural, com priorização de semeaduras mais precoces em regiões sujeitas a frio intenso, permitindo que o florescimento ocorra sob temperaturas superiores a 20 °C.
O manejo também deve incluir o uso de sementes certificadas e tratadas, além da adoção de boas práticas agronômicas para reduzir fontes de inóculo. Em situações de condição ambiental favorável durante a antese, a aplicação preventiva de fungicidas pode contribuir para o controle da doença.
Aplicações preventivas de tebuconazol na dose de 200 g i.a./ha podem apresentar eficiência superior a 90% (Pinto et al., 2003).
As doenças de colmo e raiz representam importantes ameaças à estabilidade produtiva da cultura do sorgo no Brasil, especialmente em safrinhas das regiões do Cerrado e Nordeste, onde condições de estresse hídrico e altas temperaturas favorecem a ocorrência de infecções na base das plantas (Casela et al., 2013).
Doença comum em todas as regiões produtoras de sorgo no Brasil, com maior expressão em condições tropicais, podendo comprometer a integridade dos tecidos do colmo e predispor as plantas ao tombamento.
Causada principalmente por Fusarium moniliforme. O patógeno sobrevive em restos culturais no solo, sementes infectadas e hospedeiros alternativos, principalmente gramíneas. A infecção é favorecida pela ocorrência de ferimentos nas raízes, causados por insetos, nematoides ou danos mecânicos.
Os sintomas tornam-se mais evidentes após o florescimento, quando as plantas passam a apresentar seca precoce e maior predisposição ao tombamento. Internamente, os tecidos do colmo adquirem coloração avermelhada, enquanto a medula se desintegra, permanecendo apenas os vasos intactos.
A doença também pode afetar as raízes, além de causar podridão de sementes e plântulas nas fases iniciais de desenvolvimento.
Foto 5 - Lesões em colmo causadas por fusariose (Fusarium spp.) | Foto: Vinícius Alencar.
A doença é favorecida por temperaturas elevadas, entre 25 °C e 30 °C, associadas a condições de umidade moderada a alta e à presença de ferimentos na base do colmo e das raízes. A disseminação ocorre por conídios transportados pelo vento e pela chuva, além da permanência do inóculo em restos culturais e no solo.
A principal estratégia de manejo consiste na adoção integrada de práticas culturais adequadas. Recomenda-se o uso de sementes certificadas associadas a um tratamento de sementes eficiente, além da semeadura em época favorável para a cultura e utilização de população adequada de plantas.
A adubação equilibrada, especialmente em nitrogênio e potássio, também contribui para reduzir a severidade da doença. Deve-se evitar o cultivo em áreas com histórico de nematoides, principalmente Pratylenchus spp., além de realizar o manejo de insetos que possam causar ferimentos nas plantas.
O manejo adequado das doenças foliares também é importante, pois reduz a exaustão fisiológica do colmo. Além disso, solos compactados favorecem a severidade da fusariose.
Doença de colmo e raiz de grande importância em condições de seca e altas temperaturas na cultura do sorgo, especialmente em safrinhas do Brasil Central, na região do Cerrado.
Causada pelo fungo Macrophomina phaseolina, patógeno polífago com ampla gama de hospedeiros, superior a 500 espécies. O fungo forma microescleródios pretos, com tamanho entre 50 e 150 μm, que sobrevivem no solo por vários anos - de 3 a 12 anos em condições secas.
O inóculo primário pode estar presente em restos culturais, no solo ou em sementes contaminadas. O patógeno não produz esporos aéreos, e a infecção ocorre principalmente via raízes ou pela base do colmo.
A infecção possui caráter sistêmico, promovendo a desintegração interna das raízes e da base do colmo. A medula torna-se fibrosa, escura e desintegrada, permanecendo apenas os feixes vasculares associados à presença de microescleródios pretos característicos, conferindo aspecto de “carvão” ou “cinza”.
As plantas apresentam seca precoce, enfraquecimento do colmo e maior predisposição ao tombamento ou acamamento durante o enchimento de grãos. Externamente, também podem ser observados sintomas de seca foliar e redução no enchimento dos grãos.
Foto 6 - Entre os sintomas estão a morte prematura da planta (A) e a dilaceração das fibras do colmo (B), com a presença de pontos escuros visíveis. Destaca-se também a estrutura de reprodução de picnídios de Macrophomina phaseolina (C) | Fotos: Fernando Coa (A e B) e Élcio Alves (C).
A doença é favorecida por altas temperaturas, entre 30 °C e 37 °C, associadas ao déficit hídrico no solo durante o enchimento de grãos. Nessas condições, o estresse hídrico favorece a atuação oportunista do patógeno em plantas debilitadas.
A disseminação ocorre principalmente via solo e restos culturais, sendo considerada limitada em comparação a doenças com disseminação aérea. A severidade tende a ser maior em safrinhas tardias, solos leves ou de baixa fertilidade e em cultivares suscetíveis.
As principais estratégias de manejo envolvem práticas culturais voltadas à redução do estresse hídrico nas plantas, como a realização da semeadura em época adequada para favorecer o escape da seca e, quando possível, o uso de irrigação suplementar.
Também é recomendada a utilização de híbridos mais tolerantes ao estresse hídrico e com sistema radicular mais profundo. Há relatos de resistência genética parcial em algumas linhagens, incluindo o híbrido 50A60, que apresenta boa tolerância à doença.
O histórico da área também deve ser considerado, especialmente em locais com elevada severidade da doença em culturas suscetíveis, como a soja. Além disso, solos arenosos e compactados favorecem o aumento da severidade da podridão por Macrophomina.
O manejo integrado de doenças na cultura do sorgo no Brasil exige uma abordagem holística, baseada na interação entre patógeno, ambiente e hospedeiro, com forte ênfase no conhecimento da sensibilidade específica de cada híbrido às principais doenças da cultura. A observação contínua das condições climáticas - especialmente temperatura, umidade relativa do ar, período de molhamento foliar e déficit hídrico - é fundamental para a adoção de estratégias de manejo mais assertivas e oportunas.
Entre as principais práticas recomendadas estão a semeadura em época adequada para favorecer o escape de estresses climáticos, a adubação equilibrada - evitando excessos de nitrogênio, que favorecem doenças foliares e de colmo -, a rotação soja-sorgo, a eliminação de plantas voluntárias e a escolha de híbridos com níveis adequados de resistência ou tolerância.
O uso racional de fungicidas, principalmente triazóis, estrobilurinas e misturas, deve ser adotado de forma complementar e preventiva, com aplicações baseadas no monitoramento da lavoura, considerando fatores como severidade foliar superior a 5-10% ou elevado risco climático.
Dessa forma, a combinação entre resistência genética robusta, práticas culturais adequadas e uso estratégico de fungicidas em momentos críticos é essencial para maximizar a durabilidade da resistência, minimizar perdas produtivas e contribuir para a sustentabilidade econômica e ambiental da cultura, especialmente em um cenário de expansão acelerada da área cultivada e aumento da demanda por grãos destinados à produção de etanol e à exportação.
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CASELA, CR; FERREIRA, AS; PINTO, NFJA. Doenças na cultura do sorgo. Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo, 2009. 35 p. Embrapa Milho e Sorgo. Circular Técnica, 124.
CASELA, CR; SANTOS, FG; FERREIRA, AS. Manejo integrado de doenças do sorgo. Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo, 2013. 14 p. Embrapa Milho e Sorgo. Circular Técnica, 89.
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