14/04/2026

Profundidade de plantio: fator-chave para o estabelecimento e a produtividade no milho safrinha

 
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Estádios iniciais do milho

O milho safrinha ocupa papel estratégico na produção agrícola brasileira, especialmente em sistemas de sucessão à soja. Entretanto, por ser cultivado sob condições frequentemente mais restritivas de umidade, temperatura e fertilidade do solo, o adequado estabelecimento inicial da cultura torna-se determinante para o sucesso produtivo.

Entre os fatores que influenciam a emergência e o vigor inicial das plantas, destaca-se a profundidade de plantio, que interfere diretamente na uniformidade de emergência, no desenvolvimento radicular, na população final de plantas e, consequentemente, na produtividade de grãos.

A profundidade inadequada de deposição das sementes pode resultar em falhas de estande, ocorrência de plantas inferiores, mau enraizamento e maior suscetibilidade a estresses abióticos, comprometendo o potencial produtivo da lavoura. Nesse contexto, compreender até que profundidade o milho safrinha pode ser semeado, bem como identificar a faixa mais adequada para o estabelecimento da cultura, torna-se fundamental para a tomada de decisão no manejo da semeadura.

A semeadura em profundidade muito rasa, além do risco de deixar sementes descobertas, pode expô-las a temperaturas mais elevadas do solo e a maiores variações de umidade. Por outro lado, sementes depositadas em profundidades excessivas exigem maior gasto energético da plântula para emergir, o que pode resultar em atraso e desuniformidade na emergência das plantas de milho.

A safrinha 2025S em Minas Gerais foi marcada por um longo período de estiagem. Durante o período de plantio, realizado em meados da janela da safrinha (fevereiro-março), a umidade do solo encontrava-se baixa, gerando dúvidas entre produtores quanto à profundidade mais adequada de semeadura - se mais superficial ou mais profunda.

Nessas condições, algumas áreas apresentavam maior volume de palha na superfície, o que favorecia a retenção de umidade no solo e possibilitava a germinação das sementes. Em contrapartida, nas porções do terreno com menor cobertura de palha, o solo apresentava baixa umidade, e a germinação aconteceu apenas após a ocorrência de chuvas. Como consequência, observou-se a formação de dois fluxos distintos de emergência: um anterior às chuvas e outro posterior.

Em outras áreas, onde a semeadura foi realizada em maior profundidade, as sementes atingiram uma camada do solo com umidade mais uniforme e elevada, resultando em maior uniformidade de emergência das plantas.

Diante desse cenário, o objetivo deste trabalho foi avaliar o estabelecimento e o desempenho do milho safrinha semeado em diferentes profundidades de plantio.

Metodologia

O estudo foi conduzido no município de Bambuí/MG, na Fazenda Santa Luzia, área utilizada para pesquisas da consultoria NuCampo.

Os tratamentos consistiram em seis profundidades de plantio: 1 cm; 3 cm; 5 cm; 7 cm; 9 cm e 11 cm. O híbrido utilizado foi o P40537PWU.

Foram avaliados parâmetros relacionados à performance da cultura, incluindo população final de plantas, porcentagem de plantas inferiores e produtividade.

Figura 1 - Visão geral dos tratamentos em estágio V6/V7 | Fotos: Felipe Albino.

Resultados

Os resultados obtidos neste estudo permitem analisar de forma objetiva o impacto da profundidade de semeadura sobre o estabelecimento inicial da cultura, evidenciando padrões claros de resposta do milho às diferentes profundidades de plantio.

População final de plantas

Os dados demonstram que a profundidade de semeadura interferiu diretamente na emergência e na população final de plantas (Gráfico 1). Observa-se que a menor população foi registrada na profundidade de 1 cm, com aproximadamente 46.000 plantas/ha. Esse resultado pode estar associado à menor disponibilidade de umidade na camada superficial do solo e à maior exposição das sementes às variações de temperatura.

Nas profundidades intermediárias, especialmente em 3 cm, foi observado o maior estande final, com cerca de 62.000 plantas/ha, indicando melhores condições para germinação e estabelecimento das plântulas.

Por outro lado, nas maiores profundidades avaliadas, principalmente em 11 cm, houve nova redução na população final de plantas, alcançando aproximadamente 51.000 plantas/ha. Esse comportamento pode estar relacionado ao maior gasto energético das plântulas para emergência quando as sementes são depositadas em camadas mais profundas do solo.

Gráfico 1 - População final de plantas (plantas/ha) em função da profundidade de plantio | Fonte: Pioneer®.

Plantas inferiores

Outro parâmetro avaliado foi a porcentagem de plantas inferiores, também chamadas de plantas dominadas, indicador importante da uniformidade de desenvolvimento da lavoura.

Observa-se que as menores profundidades de semeadura apresentaram maior percentual de plantas inferiores (Gráfico 2). Na profundidade de 3 cm, por exemplo, registrou-se o maior valor, com 47%, indicando elevada desuniformidade no estabelecimento das plantas.

Esse comportamento pode estar associado à menor disponibilidade de umidade nas camadas mais superficiais do solo no momento da semeadura, o que favoreceu a ocorrência de emergência desuniforme e resultou em plantas com diferentes estádios de desenvolvimento.

Gráfico 2 - Plantas inferiores (%) em função da profundidade de plantio | Fonte: Pioneer®.

Por outro lado, à medida que a profundidade de plantio aumentou, observou-se redução na porcentagem de plantas inferiores. Nas profundidades de 9 cm e 11 cm foram registrados os menores valores, com 16% e 14%, respectivamente. Nesse cenário, a deposição das sementes em camadas do solo com maior e mais uniforme disponibilidade de umidade favoreceu uma emergência mais homogênea das plantas.

Produtividade

Em relação à produtividade, observa-se que as profundidades de 3 cm e 11 cm apresentaram os maiores resultados produtivos (Gráfico 3), com valores de aproximadamente 137,1 sc/ha e 137,7 sc/ha, respectivamente.

Gráfico 3 - Produtividade (sc/ha) em função da profundidade de plantio | Fonte: Pioneer®.

Na profundidade de 3 cm foi registrada a maior população final de plantas, porém também o maior percentual de plantas inferiores. Nesse tratamento, a emergência ocorreu em dois fluxos distintos: parte das plantas emergiu logo após o plantio e outra parte aproximadamente 15 dias depois, após a ocorrência de chuvas. Apesar dessa desuniformidade, o impacto sobre a produtividade foi limitado. As plantas que emergiram posteriormente apresentaram espigas de menor padrão, porém ainda contribuíram para a produção final da lavoura.

Já na profundidade de 11 cm, o resultado produtivo pode ser explicado pela combinação de menor população final de plantas e maior uniformidade de desenvolvimento. Nessas condições, observou-se maior capacidade de compensação pelas plantas, com maior expansão e melhor enchimento de espigas, além de maior eficiência no uso da água. Esse comportamento é consistente com resultados observados em outros trabalhos, nos quais populações menores, em ambientes com maior restrição hídrica, podem favorecer o desempenho produtivo do milho safrinha.

Por outro lado, os tratamentos com profundidades intermediárias de 5 cm, 7 cm e 9 cm apresentaram produtividades semelhantes entre si. Esses tratamentos também mostraram valores próximos de população final de plantas, indicando que, nesse caso, a população estabelecida teve forte influência sobre o resultado produtivo do híbrido avaliado.

Conclusão

A profundidade de plantio exerce influência significativa sobre o estabelecimento, a população final e a produtividade do milho safrinha.

O experimento demonstrou que a profundidade de semeadura interfere diretamente no estabelecimento inicial da cultura. Em condições de baixa umidade do solo no momento do plantio, profundidades maiores (especialmente a partir de 5 cm) favoreceram o contato da semente com camadas de solo com maior disponibilidade hídrica, contribuindo para melhor emergência e uniformidade das plantas.

Por outro lado, a semeadura em profundidades muito rasas pode comprometer o estabelecimento da cultura, aumentando a exposição das sementes às variações de temperatura e à menor disponibilidade de umidade no solo, o que pode resultar em desuniformidade de emergência e redução da população final de plantas.

Figura 2 - Profundidade também se refletiu na apresentação das espigas, ao fim do estudo | Fotos: Felipe Albino.

De modo geral, as profundidades acima de 3 cm apresentaram os melhores resultados de produtividade. No entanto, considerando os diferentes parâmetros avaliados no trabalho, como população final, uniformidade de plantas e produtividade, a profundidade de 7 cm apresentou bom equilíbrio entre estabelecimento da lavoura e desempenho produtivo nas condições deste ambiente.

Assim, o manejo correto da profundidade de semeadura é uma prática essencial para maximizar a eficiência produtiva do milho safrinha, devendo ser ajustado conforme as condições edafoclimáticas, o sistema de manejo adotado e as características genéticas do material utilizado.

Autor: Felipe Albino, agrônomo de campo Pioneer®.

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